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Teses de doutorado abordam obesidade e doença cardiovascular

  • 06/12/2013

A avaliação de fatores de risco para obesidade em crianças e risco de doença cardiovascular em gestantes têm significativa prevalência e se configuram como problemas de saúde pública. Diante da importância de abordar assuntos relevantes para a saúde da população, as médicas e professoras Wania Eloisa Ebert Cechin e Giovana Paula Bonfantti Donato, do corpo clínico do Hospital São Vicente de Paulo de Passo Fundo e da Faculdade de Medicina da UPF, apresentaram em agosto de 2013 suas teses de doutorado ao Programa de Pós Graduação em Ciências da Saúde: Cardiologia e Ciências Cardiovasculares da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. As teses são intituladas “Estudos de coorte de nascimentos em Passo Fundo: avaliação de fatores de risco para obesidade e hipertensão arterial em crianças” e “Estudo de coorte em gestantes adolescentes e adultas jovens de Passo Fundo: desenvolvimento de fatores de risco para doença cardiovascular.”

As pesquisadoras salientam que os nascimentos oriundos de gestação na adolescência representam um décimo dos nascimentos no mundo. No Brasil, índices recentes revelam que a taxa de fecundidade está rejuvenescendo e que entre as jovens com 15 a 17 anos, 7,3% já tem pelo menos um filho. Segundo elas, o interesse por fazer a pesquisa em gestantes adolescentes e seus filhos baseou-se em evidências de estudos de longa data que indicam que a predisposição à hipertensão arterial, por exemplo, que ocorre na vida adulta inicia-se antes mesmo do nascimento. “O fato é que existe uma associação de características nutricionais fetais que poderão repercutir durante a infância para a susceptibilidade do indivíduo desenvolver doença cardiovascular futuramente”, explica Dra. Wania.

Neste sentido, a originalidade do estudo está na faixa etária das gestantes (adolescência), pois neste período as mulheres tendem a apresentar maior ganho de peso gestacional. Na visão da Dra. Giovana, as repercussões do ganho de peso materno durante a gestação na adolescência poderão refletir sobre os desfechos na vida adulta, que podem ser avaliados como fatores relacionados ao risco de desenvolver obesidade e hipertensão arterial no futuro.

Este estudo foi realizado em Passo Fundo e iniciou em 2001, quando todas as gestantes com menos de 25 anos foram identificadas por ocasião do parto nos quatro hospitais da cidade, e após foram entrevistadas. Essas mulheres, juntamente com seus recém-nascidos também fizeram uma avaliação antropométrica.
Em 2009-2010, as crianças e suas mães, foram localizadas e novamente entrevistadas. A coleta de dados foi feita no ambulatório do Hospital São Vicente de Paulo, por meio de questionários padronizados, que eram semelhantes aos utilizados anteriormente, com perguntas adicionais para determinar fatores de risco cardiovascular.

No estudo perinatal (2001), foram avaliados 664 recém-nascidos vivos, 53,8% do sexo masculino, 14,2% prematuros e com baixo peso ao nascer, 5,3% eram pequenos e 12,3% grandes para idade gestacional. No seguimento (2009/10), foram encontradas 529 participantes que moravam em Passo Fundo no momento do nascimento. Desta amostra, 451 crianças foram entrevistadas e avaliadas. “As comparações entre as crianças identificadas no estudo perinatal e no seguimento mostrou que a maioria dos que permaneceram na coorte nasceram a termo, pesavam mais de três quilos, e foram amamentados exclusivamente por até quatro meses”, afirma Dra. Wania. Ainda complementando, ela ressalta que as mulheres adolescentes e adultas jovens magras antes da gravidez tinham, em média, crianças com baixo peso ao nascimento, enquanto as mulheres com sobrepeso ou obesidade tiveram recém-nascidos mais pesados. Porém, o IMC materno pré-gestacional não foi associado com o IMC criança aos oito anos de idade.

Seguindo na linha da hipótese principal, as pesquisadoras identificaram que o peso ao nascer associou-se com adiposidade em crianças, independentemente de sexo, idade gestacional, duração do aleitamento materno, idade materna, escolaridade, tabagismo durante a gravidez e IMC materno pré-gestacional. “No acompanhamento, 12% das crianças tinham obesidade e 17% tinham sobrepeso. Essa sequência de associações do IMC materno pré-gestacional com o peso de nascimento e deste, com o IMC e outros índices de adiposidade na infância, pode contribuir para a manutenção do ciclo intergeracional da obesidade”, destaca Dra. Wania.

A respeito das mães, no estudo perinatal, 661 mulheres foram avaliadas e 47,5% tinham entre 11 e 19 anos, 52,5% tinham de 20 a 24 anos e cerca de 60% estavam na primeira gestação. Em 2009-10, 443 mulheres foram localizadas e reavaliadas. Ocorreu aumento de renda, escolaridade e número de filhos. Além disso, aumentaram as prevalências de tabagismo e consumo de álcool, principalmente, entre as mais jovens.

Segundo a Dra. Giovana, o Índice de Massa Corporal (IMC) aumentou do período pré-gestacional para o período de seguimento, que ocorreu oito anos após o parto. No acompanhamento, 22% das mulheres tinham obesidade, 28% tinham sobrepeso e 52% tinham circunferência da cintura acima de 80 cm, nível considerado de risco cardiovascular.

“O sobrepeso e a obesidade antes da gestação e o ganho de peso acima do recomendado durante a gestação associaram-se com mais chance de obesidade geral e abdominal nas mulheres na vida adulta, além de aumento dos níveis de pressão arterial oito anos após o parto. Sobrepeso ou obesidade após a gestação mostraram as mesmas associações, mas com riscos de menor magnitude”, salienta Dra. Giovana, ao acrescentar que estes dados apontam para o desenvolvimento de um perfil de risco cardiovascular para mulheres adolescentes e adultas jovens de Passo Fundo.

Estes estudos, resultaram em várias publicações científicas e que foram submetidas a revistas médicas internacionais, além de que serviram para gerar outras hipóteses para agregar-se à origem fetal das doenças cardiovasculares, sugerindo o seguimento do estudo com componentes da dieta e da atividade física durante a infância e início da vida adulta.

As manifestações de doenças cardiovasculares fazem parte de um contínuo e podem se manifestar precocemente, tanto para adultos quanto para crianças ou adolescentes. Diante desta constatação, as pesquisadoras acreditam que a continuidade desse estudo com o seguimento desses pacientes é que poderá responder às questões deixadas em aberto, projetando intervenções custo-efetivas de saúde para gestantes adolescentes de Passo Fundo e seus filhos.