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A vida em questão: o adoecer do paciente oncológico

  • 26/09/2023

Há bastante tempo, o diagnóstico de câncer deixou de ser um tabu para ser um tema importante a ser discutido na sociedade. Afinal, o paciente não foi condenado à morte só porque está em tratamento. O momento é sim de bastante medo, mas acima de tudo cheio de esperança. Pensando nisso, as psicólogas do Hospital São Vicente de Paulo, Adrieli Olibone e Alice Maria Giacomelli, escreveram um artigo que reflete sobre a necessidade de cuidarmos da saúde mental das pessoas que enfrentam a doença. 

A vida em questão: o adoecer do paciente oncológico

No mês de Prevenção ao Suicídio, conhecido como Setembro Amarelo, volta-se, especialmente a atenção para o cuidado em saúde mental. Cada sujeito, em sua história e estilo de vida, vivencia diferentes situações, suscitando sentimentos e emoções que são experienciadas de forma singular por cada um, de acordo com seus recursos de enfrentamento. 

No âmbito hospitalar, deparamo-nos com a situação de adoecimento de forma constante e, compreendemos que, para além das implicações do cotidiano, ao receber um diagnóstico difícil, tal como o câncer, o sujeito se vê diante de um sofrimento total, ou seja, de ordem física, emocional, social e espiritual, considerando-se todas as mudanças e transformações ocasionadas pelo adoecer, e posteriormente, também pelos tratamentos realizados. 

O diagnóstico de uma doença grave como o câncer, ainda permeada de diversos estigmas e significados, faz romper com o que era conhecido para o sujeito e, coloca-o a refletir sobre questões anteriormente estranhas a ele, como a possibilidade da morte. A incerteza da vida, bem como, as dores e perdas causadas pelo processo saúde-doença, podem fazer emergir nestes pacientes, sentimentos e emoções, como ansiedade, raiva, medo, tristeza, dúvida, frustração, dentre outras, que são comuns neste cenário, mas precisam encontrar espaço e possibilidade de expressão, para um enfrentamento efetivo e saudável diante desta difícil trajetória. 

Mas, o que fazer quando o único recurso que resta é pôr fim à própria vida? Quando acredita-se que aquilo que conhecia e que fazia sentido, com todas as limitações advindas com o adoecimento já não é mais possível? A comunicação ainda é a melhor saída. Falar sobre as angústias e os medos provenientes do desconhecido - ou do que já se teve notícias, no caso de pacientes que já passaram pela experiência do adoecer por câncer, e que agora, ‘revivem’ com o surgimento de um novo diagnóstico - pode aliviar o sofrimento e a incerteza diante do que se coloca. 

Paciente, familiares e amigos vivenciam, cada um à sua maneira, o adoecer de quem se ama. Ouvir, sem julgamento, na certeza de que cada dor e padecimento é único e deve ser validado é o passo inicial e o que deve guiar o caminho do tratamento. 

As doenças crônicas, incluindo as neoplasias, são fatores de risco para o suicídio. Logo, diante da angústia despertada pela ocasião do adoecimento, compreende-se que também através do apoio mútuo entre serviços de saúde, família e comunidade, o cuidado de pacientes acometidos pelo câncer e demais patologias ameaçadoras à vida, são garantidos de forma integral. O olhar para o paciente, para além da doença, evidenciando o sujeito dentro de sua história pessoal, pode possibilitar ao mesmo a reapropriação do sentido da vida e um novo significado em relação ao atravessamento do câncer em sua existência. Além disso, com a ajuda de um profissional qualificado pode-se encontrar um novo significado para o viver junto ao câncer; para toda uma história de vida que emerge quando crê estar mais próximo da morte do que já esteve um dia e do que deseja perpetuar, mesmo quando o fim se impõe.

Autoras: Adrieli Olibone (psicóloga, coordenadora e preceptora da área da Psicologia no Programa de Residência Multiprofissional em Atenção ao Câncer e responsável pela Oncologia Infantojuvenil do HSVP Passo Fundo) e Alice Maria Giacomelli (psicóloga e preceptora  da área da Psicologia no Programa de Residência Multiprofissional em Atenção ao Câncer e responsável pela Oncologia Adulta do HSVP Passo Fundo)