O número oito para numerologia representa o renascimento, a renovação e a regeneração e, não foi à toa que o pequeno Luiz Felipe nasceu no dia 18 de julho, às 18h08min, com apenas 24 semanas e três dias. Pesando 560 gramas e 26 centímetros, esse pequeno guerreiro lutou e renasceu inúmeras vezes.
Luciani Marques Severnini, mãe do Luiz, 34 anos, de Nova Alvorada, conta que desde o ínicio, já sabia que sua gravidez era de risco, pois tinha trombofilia e hipertensão mas, planejou parar com os remédios a partir da 36ª semana e com 37ª realizar a cesariana. Porém, Luiz tinha outros planos e precisou vir ao mundo com quatro meses de antecedência, proporcionando aos pais de primeira viagem, uma bagagem enorme de conhecimento.
Luciani relata que com 21 semanas seu corpo começou a modificar, apresentando um ganho excessivo de peso e um inchaço fora do comum, por isso precisou realizar alguns exames para entender essas mudanças. Ainda em Nova Alvorada, recebeu a notícia de que seria transferida para o Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) em Passo Fundo, que conta com toda a estrutura da CTI Neonatal que ela precisaria para o pequeno Luiz.
Com 22 semanas completas, Luciani veio a Passo Fundo, onde ficou internada e descobriu que seu estado já era avançado, correndo o risco de perder o bebê, pois, o feto, por ser tão pequenino, não era viável, portanto se priorizaria a saúde da mãe. “Lembro de ter olhado para o médico desesperada e ele me disse que as chances de vida do Luiz eram pequenas, aí eu me desesperei ainda mais. Estava no quarto com mais duas mulheres, duas mãezinhas, ficou um silêncio e só o meu choro”, relembra.
Após receber auxílio psicológico do HSVP, os milagres começaram a acontecer, Luiz começou a ganhar peso, tornando sua vinda ao mundo viável. Os exames eram realizados de dois em dois dias, e cada vez mais se tornava possível o sonho da mãe. “Tive toda uma preparação, a psicóloga me levou conhecer a CTI Neonatal, me explicou como funcionava, que o Luiz ia nascer muito pequenininho. Ele já estava com 560 gramas, um pouquinho mais pesadinho, com 24 semanas e 3 dias, já tinha se tornado viável. Ela também explicou que assim que o Luis nascesse o pai ia acompanhar, que ia demorar um tempo para voltar, mas não era para eu ficar preocupada e foi isso que aconteceu, eu sabia de todos os passos, por isso não fiquei tão apavorada”, conta. Após 18 dias internada, no terceiro sábado de julho, Luiz veio ao mundo. “Ele chorou, um chorinho igual miado de gato, mas chorou. Depois, chorou de novo, foi aí que o anestesista deu um tapinha no ombro meu e do pai e disse que iria ficar tudo bem”, conta Luciani. No dia seguinte, outro choque de realidade ao ver o pequeno na CTI, “pensei que não teria como sobreviver, ele sendo tão pequenininho, não tinha como ficar bem, eu ficava em estado de choque olhando, me culpando muito”, relata.
Os extensos meses no Hospital iniciaram e Luiz passou por diversas complicações como infecções, hemorragias, pneumonias cada dia era uma batalha diferente, mas que ele, venceu uma atrás da outra. Foram 76 dias entubado, aproximadamente 15 transfusões de sangue, plasma e outros hemocomponentes, porém, o momento mais difícil de todos, foi quando os rins do bebê quase pararam. “A doutora disse para nos preparamos que não tinha mais o que fazer, a única solução seria a hemodiálise, mas que ela não faria isso por ser muito doloroso. Até que, depois de 24 horas sem fazer xixi, ele voltou, a gente comemorava cada gotinha! Eram horas olhando para aquele tubinho lá embaixo para ver se aumentava um pouquinho. A gente comemora tudo”, destaca.
Depois de tudo isso, já com 4 meses e 12 dias e seus 2,580kg conquistados com muita batalha, Luiz está prestes a ir para casa. “Estamos aqui só vivendo esse momento que é mágico, que é um sonho, agradecendo muito a Deus por cada momento, agradecendo aos profissionais da saúde que não tem explicação, são anjos enviados por Deus para cuidar da gente. Sem Deus e sem essas pessoas maravilhosas que prestam esse trabalho excepcional, não teria esse menino lindo aqui. Ele fez a ressonância, está com a estrutura cerebral conservada, a neurologista falou que ele não terá nenhuma deficiência, já está mamando, exclusivamente no peito, ganhando peso e estamos nos preparando para a alta”, comemora a mãe.
Lactário, o lugar da união
Da mesma forma que foi motivada a acreditar e ter fé, Luciani busca trazer essa força para quem está chegando e prestes a enfrentar batalhas parecidas com a dela. “Aqui a gente acaba criando uma rede entre as mães e todos os profissionais que acolhem e cuidam da gente, não só dos nossos filhos. O lactário é o ponto de encontro das mães, onde a gente vai coletar o leite materno, é onde trocamos informações, ficamos sabendo o que cada uma está vivendo, uma consola a outra, porque sempre tem os novos que estão chegando e os mais velhos que estão saindo com uma história de superação, uma história bonita.” relata.
A mãe conta também da solidariedade por parte dos profissionais. “É um lugar onde a gente chora, desabafa, a gente sabe que na CTI perto deles, tem que estar firme, não podemos ficar desabando na frente deles. Lá tem todo um carinho, uma preocupação, nos tornamos uma família, uma corrente de apoio. No momento que você não está bem, sempre tem uma mãe ali te apoiando” explica.
Aprendizados inesquecíveis
Após passar por todos esses dias de aflições, Luciani destaca que, se não fosse pelo sofrimento do filho, passaria por tudo novamente, pois o aprendizado que tirou dessa vivência é algo que jamais esquecerá. “Colocamos valor em coisas que não tem, nesses momentos difíceis vemos o que realmente tem valor, que é a família, os amigos, o contato, estar junto. Às vezes, só uma palavra amiga ajuda, e no dia a dia normalmente a gente vive no nosso mundinho, eu por exemplo, não conhecia a realidade de um hospital, nunca tinha ouvido falar de uma situação assim ou desses profissionais que se doam. Vimos que o mundo tem esperança nas pessoas ainda, nem tudo está perdido, existem pessoas boas”, finaliza.
Foto: Luiz Felipe já recebeu alta da CTI Neonatal e aguarda alta na Pediatria (Fotos: Assessoria de Imprensa HSVP/Gabrieli Corrêa)