Confira a reflexão sobre a vida e a morte feita pela Psicóloga Coordenadora do Serviço de Psicologia do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), Unidade Uruguai, de Passo Fundo, Gisele Dala Lana:
O dia de finados é destinado a homenagear os mortos, aqueles que fazem parte de nossa história e que perdemos no decorrer de nosso trajeto. Data de recordar com saudade, acionar as lembranças dos momentos vividos junto daqueles que deixaram suas marcas em nós, o que depende diretamente do vínculo e da relação que tínhamos. Perder alguém que amamos é doloroso. Receber a notícia de que nunca mais veremos alguém, de que não será possível dar um abraço, sentir o cheiro, dialogar, é extremamente difícil. Os sentimentos suscitados dentro de si são intensos e não encontram sossego num primeiro momento, requer tempo, trabalho do luto e elaboração psíquica. Saber da morte do outro nos remete a pensar sobre quando será a nossa própria morte, nós vivemos como se a vida fosse infinita, e a finitude não tem espaço para ser lembrada na correria do dia a dia.
Freud refere que no fundo ninguém crê na própria morte, ou seja, "que no inconsciente cada um de nós está convencido de sua própria imortalidade". As pessoas evitam a ideia da morte, pensando que os outros morrem. Neste ano em decorrência da pandemia, muitas pessoas se depararam com uma ameaça que convocava a pensar sobre este tema. O medo de adoecer e a incerteza de como seria a recuperação e o desfecho de cada um, uma vez que acompanhamos que existem tantas variáveis diante da Covid-19.
Quando alguém se depara com o adoecimento provavelmente irá pensar na possibilidade da morte, junto ao diagnóstico vem a pergunta sobre o tratamento e se a cura será possível. A forma como cada um lida com essa notícia está relacionada a ligação que cada um tem com a sua vida, o quanto cada um deseja viver e quais os motivos que há para lutar pela vida. Geralmente, isto está relacionado ao ter pessoas com quem se tem uma ligação afetiva muito intensa. Quando se ama a vida a força para lutar aumenta, e isso ajuda a atravessar o trajeto de um tratamento.
Freud ao tratar sobre o valor da transitoriedade, afirma que a escassez de tempo acresce valor, a vida se torna ainda mais interessante, mais preciosa, não reduz a alegria que esta pode nos proporcionar mesmo que passageira. O humano quando se depara com a possibilidade de perder algo que lhe é importante, descobre e reconhece o valor que aquilo tem, a simples autonomia sobre si e o seu corpo são percebidas diante de momentos de privações.
A morte é um limite, um real que se impõe. Tomar contato com a possibilidade de morrer, pode nos dar a chance de sentirmos na pele o devido valor da vida. Aqui cabe a reflexão: O que liga cada um de nós a vida? O que nos da força para diante das maiores dificuldades desejar ir em frente? Essas são questões singulares e só podem ser respondidas por cada um. Refletir sobre a morte oportuniza a revisar a maneira como cada um conduz a sua vida, de que maneira a usufrui ou a desperdiça. Alguns temem a morte, o que mostra o desejo pela vida, não querem perder a oportunidade de estar junto daqueles que amam, tem muito a fazer.
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