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Saúde mental em tempos de pandemia

  • 03/07/2020

A pandemia da Covid-19 mudou nossos hábitos e rotinas, transformou nossa convivência social, aumentou nossos medos e receios, trouxe preocupações e muitas incertezas. Diante de tanta mudança, lutamos contra inúmeros fatores e nos forçamos a uma rápida adaptação desses novos acontecimentos diários. Manter a saúde mental saudável é fundamental para enfrentar esse momento. A Psiquiatra do Corpo Clínico do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), de Passo Fundo, Dra. Rita de Cássia Maynart Pereira, define saúde mental como o equilíbrio das nossas capacidades cognitivas, afetivas e comportamentais. “As pessoas que lidam melhor com mudanças, com frustrações e com afetos negativos como tristeza, solidão e raiva; apresentam uma melhor saúde mental. Provavelmente, estes indivíduos conseguirão desenvolver uma resiliência emocional mais eficaz neste momento de pandemia”, pontua a médica.

A psiquiatra afirma que existem relatos de aumento de sintomas ansiosos e depressivos em outras pandemias, levando ao agravamento de quadros psiquiátricos a priori. “Temos observado o grande aumento de abuso de álcool e outras drogas psicoativas, aumento do comer compulsivo e de distúrbios do sono”, revela. Esses sintomas podem estar relacionados ao aumento de transtornos ansiosos e depressivos, já que o isolamento social pode causar o aumento de problemas que já estavam estruturados, no entanto, controlados, como, por exemplo, o caso da violência doméstica. “O medo de ser infectado por uma doença desconhecida e invisível e talvez de uma possível perda de alguém muito querido pode levar muitas pessoas a quadros ansiosos e até a crises de pânico. Estamos afinal nos sentindo ameaçados”, explica Rita. Soma-se a isso, perdas econômicas importantes, que, muitas vezes, comprometem necessidades básicas como alimentação, saúde e educação dos filhos. “As perdas econômicas colaboram com o aumento significativo de reações agudas ao estresse”, salienta a psiquiatra.  

Rita enaltece que sua maior preocupação é com o luto mal resolvido das famílias que perderam um ente querido e não puderam realizar os rituais de despedida que os ajudam a elaborar a perda sem que os deprima melancolicamente. “Não vamos esquecer que o homem é um ser gregário. Desde a pré-história vivemos em grupo para nos proteger e proteger a nossa prole. Lidamos muito mal com a solidão. Com o isolamento social muitos vínculos afetivos estão distantes. Nossa cultura latina é do abraço, é do beijo, é do toque. Por isso temos escutado muito nos consultórios psiquiátricos os pacientes queixarem-se de solidão”, explica.

Isolamento social

A médica afirma que talvez a melhor forma de adaptação ao isolamento social seja por meio de informação e autoconhecimento. “Estávamos vivendo em um ritmo muito acelerado e em piloto automático. Parar, observar, sentir, pensar sobre nós mesmos talvez seja uma saída saudável. Voltar a conviver com nossos pensamentos e nossos sonhos pode ser um recomeço interessante. Retomar contatos afetivos, organizar nossos projetos”, pontua. No entanto, Rita ressalta que é preciso tomar cuidado com o tamanho dessas metas, “o momento é difícil e como não sabemos por quanto tempo a pandemia vai durar, metas a longo prazo podem ser frustrantes. Muitos pensaram que iriam estudar, voltar a ler muitos livros, aprender novas coisas, além de limpar a casa e cuidar dos filhos. A grande maioria tem se culpado por não conseguir dar conta de tantas metas”, evidencia.

Rita relata acreditar que esquecemos do momento de tristeza, saudade, incerteza e solidão que vem nos acompanhando neste momento de isolamento imposto pela pandemia, já que observa que “a espiritualidade tem nos acalmado e nos deixado com mais esperança de que tudo vai passar e ficar bem. Famílias amorosas e com pensamentos positivos tem passado melhor por este período”, destaca. Porém, a psiquiatra alerta para que não haja a confusão de espiritualidade com dogmas religiosos ou ser positivo com ser negacionista. “Apesar de não atuar no meio da comunicação social acredito que a desinformação colabore com fantasias inadequadas da realidade. Sem informação correta podemos imaginar que as coisas são piores ou melhores do que elas realmente o são. Importante lembrar que o pensamento negativo é um gatilho para a ansiedade e em tempos de pandemia, a ansiedade pode ser reduzida pela informação correta”, enfatiza. Rita também atenta para os perigos das fake news, para ela “infelizmente, uma boa parte da população não sabe reconhecer quando uma informação é falsa e costuma compartilhar, perpetuando a desinformação”.

Tecnologia

A médica pontua que, em relação a tecnologia, como uma aliada da informação em tempo real, nos auxilia nos estudos e nas informações científicas sobre a pandemia. No entanto, Rita afirma que “não devemos esquecer que informações em excesso tendem a aumentar o sentimento de ansiedade. Devemos escolher jornais e programas de nossa confiança, ficar “ligado” vinte e quatro horas em noticiários podem gerar estresse. Na gripe espanhola, não tínhamos esse recurso da tecnologia. Muitas crianças e adolescentes tiveram as aulas totalmente suspensas, muitos profissionais não tinham a segurança de estar em isolamento social e manter suas atividades profissionais em home office”. Rita observa que com a tecnologia, o isolamento se torna apenas físico, já que as relações afetivas podem ser mantidas virtualmente. “Sem falar na quantidade de aplicativos que permitem um grande número de confortos como: tele entrega de alimentos, de medicações, etc. Enfim, o brasileiro que tem o privilégio de ter acesso à tecnologia está menos isolado socialmente”, ressalta.

A psiquiatra também pontua algumas dicas para manter a saúde mental em meio a pandemia, como dosar o estresse, praticar o otimismo, recordar bons momentos, olhar para si mesmo, abusar de vídeo chamadas com quem se ama, buscar uma espiritualidade, fazer atividades recreativas com os filhos, olhar para o tempo com compaixão e flexibilizar o seu horário, evitar o excesso de álcool e medicações, evitar a negação do momento, enfrentar este momento com consciência e pedir ajuda se estiver sofrendo.

Foto: Dra. Rita é Psiquiatra do Corpo Clínico do HSVP (Foto: Arquivo HSVP/Divulgação)