A obesidade infantil é considerada atualmente uma epidemia mundial, sendo a doença crônica mais prevalente na infância, variando de acordo com sexo, etnia e idade. No Brasil, 33,5% das crianças sofrem com sobrepeso ou obesidade, segundo dados do Ministério da Saúde. A nutricionista, especialista em nutrição materno-infantil do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) de Passo Fundo, Fabiana Guedes, ressalta que é um problema e deve-se ter uma atenção especial para que se possa mudar a condição com intervenções cada vez mais precoces. Conforme estudo publicado no New England Journal of Medicine, a cada cinco crianças obesas, quatro permanecerão obesas quanto adultas.
Embora sejam utilizados para indicar que uma pessoa está acima do peso ideal, sobrepeso e obesidade são condições distintas. A classificação se da de acordo com o estado nutricional em que a criança se encontra. Segundo a nutricionista, é utilizado as curvas de crescimento da Organização Mundial da Saúde e assim, se classifica o estado nutricional da criança de acordo com a antropometria e faixa etária em que se encontra, considerando Peso/Idade, Estatura/Idade, Índice de Massa Corporal/Idade. “A criança que está com sobrepeso, poderá evoluir para o desenvolvimento da obesidade, caso a condição de sobrepeso progrida”, pontua. Na região Sul, 35,9% das crianças entre cinco a nove anos e 24,6% entre 10 a 19 anos, apresentam excesso de peso, respectivamente.
Ao ter a saúde comprometida, os pequenos correm sérios riscos de desenvolver doenças na vida adulta. Estudo recente do Ministério da Saúde, aponta que crianças acima do peso possuem 75% mais chance de serem adolescentes obesos e adolescentes obesos têm 89% de chance de serem adultos obesos. De acordo com Fabiana, entre os riscos da obesidade infantil a curto e longo prazo estão problemas cardiovasculares, diabetes, hipertensão, doenças respiratórias como asma e apneia, problemas articulares, complicações metabólicas e endócrinas, alterações do sono, problemas de pele e maturação precoce. "Além disso, pode desencadear doenças de cunho emocional e social como, depressão, isolamento social, bullying, baixa autoestima e até mesmo disfunções alimentares como bulimia" alerta a especialista.
Prevenção inicia na gestação
Uma vez que as causas da obesidade são consideradas multifatoriais, ou seja, deve-se levar em consideração os fatores genéticos e hormonais, bem como os fatores de alimentação, sedentarismo, ansiedade/depressão e falta de sono, há hábitos que servem como prevenção da obesidade. Conforme a nutricionista, a prevenção já se inicia intra-útero. "Através da programação metabólica, onde o excesso ou privação de nutrientes ou o estado nutricional inadequado da mãe durante a gestação, poderá repercutir em alterações epigenéticas para o bebê ainda no meio intrauterino", ressalta. Assim, pode ocorrer o silenciamento ou ativação de determinados genes relacionados ao desenvolvimento de doenças crônicas como obesidade, hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares. “Uma gestação saudável já é um fator protetor para a prevenção não somente da obesidade mas de muitas outras doenças", comenta Fabiana. Ainda, o aleitamento materno, também é um fator protetor, uma vez que reduz o risco de obesidade infantil.
Hábitos saudáveis
Estimular uma alimentação saudável, equilibrada e variada entre todos os grupos alimentares, podem contribuir para a prevenção da obesidade. "Esse cuidado deverá ser iniciado desde a fase da introdução alimentar e mantido com a progressão da faixa etária da criança, para que a mesma tenha a condição de formar hábitos alimentares saudáveis para toda a vida", afirma a especialista. Além disso, o estilo de vida também pode ter um impacto positivo ou negativo para o desencadeamento da obesidade. "Para prevenirmos a obesidade, devemos incentivar as crianças a praticarem atividade física e brincar com brincadeiras em que se movimentem", acrescenta a nutricionista, que alerta ainda sobre a importância de limitar o tempo de telas, como televisão, celular, videogame, durante a rotina diária da criança.
Da mesma forma, a reeducação alimentar familiar é fundamental. A nutricionista salienta que o processo de alimentação saudável deve fazer parte da rotina da família toda. "Isso faz com que os ajustes e mudanças na alimentação tornem-se mais fáceis e tranquilos. Se a família não mudar os hábitos inadequados, dificilmente a criança ou adolescente conseguirão melhorar sua rotina alimentar", finaliza.
Foto: Fabiana Guedes é especialista em nutrição materno-infantil do HSVP