Frente a pandemia de covid-19, o ato de sair e retornar para casa já não é mais o mesmo. Além de toda cautela com a higiene, também sentimos que estar fora de casa é acompanhado de uma sensação de tensão, desconfiança, medo e angústia. Estamos mais do que costume atentos ao que se passa ao nosso redor. Além disso, sabemos que sendo ideal mantermos a distância física das pessoas, qualquer um que se aproxime pode representar uma ameaça. Neste período não é permitido se distrair, temos receio de que um descuido tenha um alto preço. Portanto, o que nos rege é a pergunta: mas você necessita mesmo sair de casa?
Conforme a Coordenadora do sertor de Psicologia Hospital São Vicente de Paulo, de Passo Fundo, Unidade Uruguai, Gisele Dala Lana, há situações em que é possível avaliar e encontrar alternativas, porém outras são extremamente essenciais, principalmente quando o objetivo é dar continuidade a um tratamento, de uma doença crônica, por exemplo. “Neste momento, muitos gostariam, e até chegam a pensar em fazer uma interrupção, de esperar tudo isso passar para depois retornar. No entanto, essa espera pode ser muito arriscada (até porque não se sabe por quanto tempo estaremos em isolamento social). Há situações em que é vital prosseguir com a programação de uma terapêutica”, destaca a especialista em pscicologia hospitalar, ressaltando que pode então surgir a questão de como é fazer isso diante da ameaça de um vírus. “Há quem pense: "mas eu estou me tratando para uma coisa e corro o risco de surgir outra, que irá complicar e piorar a minha situação". É uma preocupação legítima, inclusive importante que haja, pois assim é possível avaliar como enfrentar e reduzir os riscos e os possíveis danos”.
É importante evidenciar que muitos locais estão estabelecendo medidas protetivas. No HSVP, os pacientes suspeitos com diagnóstico confirmado para Covid-19 ficam e alas isoladas, essa é uma ação para proteger os demais pacientes que precisam buscar o hospital. “O fato de saber que o local que eu frequento toma precauções e que eu faço minha parte, contribuindo com os meus cuidados, é uma maneira de se tranquilizar e poder utilizar o serviço diante de uma necessidade”, orienta Gisele.
Mas, mesmo com informações, orientações o medo medo irá nos acompanhar neste momento de incertezas em que vivemos, e no ambiente hospitalar pode ser potencializado, pois o próprio tratamento normalmente já gera inquietações, inseguranças e incertezas. “É comum vermos os pacientes chegando para atendimento: hipertensos, com dor no corpo, dor de cabeça, com alterações do sono e do apetite, o corpo anuncia um mal estar que trata de questões para além do medo de se contaminar. Esses pacientes estão em sofrimento psíquico; muitos sabem que fazem parte de um grupo de risco, portanto, vir até o hospital, pode significar se colocar em perigo. Todavia, não vir, também pode ter consequências importantes”, pontua a psicóloga, enfatizando que a decisão se torna difícil para o paciente. “Embora haja o questionamento para que alguém diga se devem ou não vir, a verdade é que cada qual terá que assumir e se responsabilizar pela sua escolha. Entender que eu posso me sentir assim, é o que possibilita me acalmar e inclusive compreender o que se trata do medo do real e quais angústias são derivadas dos sentimentos que o processo de adoecimento suscita, inclusive pelas modificações, privações e perdas na vida de cada um”.
Contudo, estamos vivendo uma situação inédita e totalmente desconhecida, que nos faz sentir impotentes, sem saber o que está por vir. Gisele expõe que, “o medo nos coloca em estado de alerta para zelar pela nossa segurança. Por outro lado, pode ser um paralisador, que nos deixa imóveis frente a vida. Cabe a cada um avaliar os riscos de sua decisão, identificando com a ajuda do seu médico, e de seus familiares, que situações de saúde podem esperar e o que é extremamente vital enfrentar, e fazê-lo com os devidos cuidados”.