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Janeiro Branco: importância de falar sobre Saúde Mental

  • 24/01/2020

Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país mais ansioso do mundo. São 18,6 milhões de brasileiros, a nível global, mais de 260 milhões de pessoas convivem com o transtorno. No mundo, 4,4% da população sofre de transtorno depressivo, no Brasil 5,8%. Anualmente, cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio, é a segunda principal causa de morte na faixa etária de 15 a 29 anos. A OMS estima que, neste ano, a depressão se tornará a doença mental mais incapacitante do mundo. Além disso, um levantamento feito pela Vittude, plataforma online voltada para a saúde mental, mostra que, no Brasil, 86% da população possui algum tipo de transtorno mental. Desde 2014, a Campanha Janeiro Branco visa sensibilizar e alertar sobre a importância de falar sobre a saúde mental.

O Psiquiatra e membro do Corpo Clínico do HSVP, Dr. Juliano Szulc Nogara, afirma que existem alguns conceitos preservados para definir a expressão “saúde mental”. “Freud dizia que quem possui saúde mental dentro da normalidade é capaz de “amar e trabalhar", já conforme Campbell: pessoas psiquicamente normais são aquelas que estão em harmonia consigo mesmas e com o seu ambiente. Vivem de acordo com as exigências e imposições culturais de suas comunidades. Podem ter desvios ou doenças médicas, mas, desde que isso não atrapalhe seu raciocínio, julgamento, capacidade intelectual e capacidade de adaptação pessoal e social harmoniosa”, explica Nogara. Assim, o médico relata que “se os sintomas que afetam a saúde mental, como humor, volição e juízo crítico, estão alterados em tal intensidade a ponto de atrapalhar as atividades importantes da vida, como trabalho, relacionamento familiar e com pessoas próximas, devem receber atenção de um profissional especializado”.

Fatores de risco

Existem alguns fatores de risco que facilitam o desenvolvimento de um transtorno mental. Segundo o psiquiatra, “abuso físico ou sexual, morte inesperada de um amigo ou familiar próximo, desemprego, situações que despertem sentimento intenso de vergonha ou desonra, desilusões amorosas, presença de transtorno mental e de tentativa de suicídio na família, histórico de transtorno mental e tentativa de suicídio no histórico pessoal e episódio depressivo pós-parto”, são alguns deles. Porém, o médico ressalta que nem todas as pessoas são pré-dispostas a desenvolver uma doença mental, no entanto, aquelas que possuem os fatores de risco, têm mais chances.

Em relação ao fator da herdabilidade, a influência genética no risco de desenvolver uma patologia psiquiátrica, de acordo com Nogara, é entendida da seguinte forma: 

• Esquizofrenia, transtorno bipolar e autismo tem herdabilidade em torno de 80%;

• Alcoolismo e outras dependências químicas de 50 a 60%;

• Transtornos do humor depressivos, transtornos ansiosos e alimentares (bulimia e anorexia) de 30 a 40% de herdabilidade.

Conforme Nogara, os mais frequentes associados ao suicídio são:

• Transtornos do humor (depressivo e bipolar) com 35,8%; 

• Transtornos relacionados ao uso de substâncias (dependência química) com 22,4%;

• Transtornos de personalidade com 11,6%;

• Esquizofrenia com 10,6%;

• Demais transtornos juntos com 25%.

Diagnóstico

Nogara explica que existem dois manuais de diagnósticos utilizados “o CID-10 e DSM-IV-TR, e mais recentemente, CID-11 e DSM-V, onde existem critérios bem definidos e não basta a pessoa possuir apenas alguns poucos sintomas afim de afirmar-se que possui um transtorno psiquiátrico”. 

Tratamento

O tratamento pode ser feito com psicofármacos (medicação) e psicoterapia, com inúmeros orientações, entre elas: terapia cognitivo comportamental, interpessoal e de orientação psicanalítica, entre outras.

Emergência psiquiátrica

Segundo Nogara, a emergência psiquiátrica “é uma condição médica que apresenta risco iminente à vida ou impacto social grave para o paciente ou para terceiros, que requer internações terapêuticas imediatas”. As situações mais comuns são: 

• Agitação psicomotora e agressividade; 

• Risco de suicídio; 

• Psicose aguda;

• Delirium e ataque de pânico. 

Nogara ainda ressalta os critérios para internação do paciente com sintomas psiquiátricos: risco de suicídio, risco de auto/ heteroagressão, incapacidade de autocuidado, transtorno de difícil controle ambulatorial, necessidade de monitoramento da evolução com mudança do esquema terapêutico, efeito adverso grave de medicação, ausência de suporte psicossocial que favoreça a adesão terapêutica e a estabilização do quadro em nível ambulatorial e risco de exposição moral ou dano ao patrimônio iminente.

Prevenção

O médico afirma que a melhor forma de prevenção é acompanhar e conviver o mais próximo possível das pessoas que se estimam. “Ao se identificar alguma das situações de alerta, procurar ajuda especializada”, pontua. 

Para manter a saúde mental saudável, Nogara sugere a realização de atividade física aeróbica frequente (cerca de 120 minutos por semana), reduzir atividades estressantes, manter e cativar relações interpessoais saudáveis (amigos e familiares) e planejar progressivamente sua vida com objetos claros e possíveis de serem atingidos.

Acesso à informação

Nunca antes o acesso à informação foi tão fácil, principalmente pela internet, mas nem sempre vai ser uma informação precisa e correta. Por isso, o psiquiatra recomenda que as pessoas devem procurar informar-se em publicações oficiais, realizadas por médicos ou profissionais de saúde especializados em saúde mental. “Preferencialmente em sites oficiais ligados à medicina assinados por médicos especialistas no assunto. O site e vídeos da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) são uma fonte de consulta confiável” orienta.

Foto: Somente 3% das pessoas que cometem suicídio não possuem nenhum transtorno mental (Foto: Divulgação/ Rafaela Frutuoso)

Foto: Juliano Nogara é Psiquiatra e médico membro do Corpo Clínico do HSVP (Foto: Ascom/ Divulgação)