A gravidez é uma fase que compreende alterações importantes, tanto para a mulher gestante como para o feto. Sendo assim comportamentos e hábitos, que possam ser prejudiciais a saúde durante a gestação, devem ser repensados a fim de evitar algumas complicações. O uso de drogas neste período é, por exemplo, um dos aspectos que merecem atenção. No Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) cerca de 10% dos nascimentos são resultantes de mães usuárias de drogas.
Segundo o médico ginecologista obstetra do Centro Obstétrico do HSVP, Dr. José Osvaldo Drum, o uso de drogas é um comportamento altamente prejudicial, tanto para a saúde de quem as usa, como para a formação do feto. “Algumas podem causar graves alterações na formação do feto, principalmente quando usada no primeiro trimestre da gestação. Outras possuem efeitos mais sutis, mas nem por isso de menor importância, que vão ser percebidos após o nascimento, durante o desenvolvimento da criança e mais tarde na adolescência”, ressaltou o especialista.
O álcool é, entre as drogas, a mais consumida e pode provocar a síndrome alcoólica fetal. “Essa síndrome, além de resultar em má formação de alguns órgãos vitais é considerada a causa mais comum de retardo mental infantil de natureza não-hereditária. Anomalias no crânio, na face e cardiopatia também são causadas pelo uso do álcool. O cigarro, outra droga socialmente aceita, causa redução marcante do fluxo sanguíneo uterino e está associado, entre outros problemas, ao baixo peso ao nascer, abortamento, parto prematuro, descolamento de placenta, além de anomalias congênitas”, enfatizou Drum.
Com o aumento do uso de drogas mais perigosas, como a cocaína e o crack, os problemas que podem ocorrer com a gestante e o feto também são mais perigosos, uma vez que essas mães, em sua maioria, não realizam acompanhamento gestacional. “O uso do crack e da cocaína pode causar o descolamento prematuro da placenta, abortamento, baixo peso ao nascer, malformações no crânio e no coração do feto. As crianças que foram expostas intra-útero a essas drogas apresentam alteração do desenvolvimento cognitivo, demonstrando menor habilidade visual-espacial para matemática e conhecimentos gerais. Já a maconha aumenta o risco de defeito cardíaco no feto, especificamente, defeito do septo interventricular. Além disso, afeta o neurodesenvolvimento na infância e na adolescência, diminuindo a habilidade de resolver problemas. As crianças expostas intra-útero à maconha frequentemente apresentam aumento da hiperatividade, impulsividade e delinquência”, informou o especialista.
Para o obstetra, a gestante que não comunica que é usuária de drogas corre riscos maiores. “Se a gestante não nos comunicar que é usuária de drogas, ela impede que uma correta avaliação e tratamento sejam efetuados, podendo aumentar o risco de má formação fetal ou mesmo abortamento. O ideal é que o diagnóstico e o tratamento sejam feitos o mais precocemente possível”.
Atendimento
No Hospital São Vicente de Paulo os atendimentos às gestantes usuárias de drogas é feito por uma equipe multidisciplinar, assim como é realizado com as demais pacientes. Nas poucas vezes em que a gestante inicia o pré-natal e informa para equipe que é usuária de drogas, o tratamento e acompanhamento psicológico e psiquiátrico são indicados para ela.
Na maioria das vezes, a gestante que inicia o pré-natal o interrompe em determinado momento devido ao vício. “Isso dificulta ainda mais o trabalho dos profissionais da saúde, que lutam para salvar a vida recém gerada. Como o acompanhamento não é feito, a possibilidade de complicações é muito ampla”, ressaltou a enfermeira obstetra, Cleusa de Carvalho.
As gestantes também têm o suporte do Serviço de Assistência Social, que faz o contato com a família e providencia a documentação para internação. “Geralmente as pacientes chegam aqui sozinhas, sem os documentos e sem o contato com a família. Procuramos a família e fazemos o encaminhamento dessas pacientes para o Conselho Tutelar, que fica responsável em providenciar a documentação, caso a gestante tenha perdido”, explicou a assistente social, Josiane de Oliveira Oligini.
Após o nascimento, a atenção com a gestante é redobrada, pois muitas ainda estão sob o efeito das drogas ou em abstinência delas. “Alertamos as pacientes que não amamentem se usaram drogas nas últimas 48 horas. O aconselhamento para aproximação com os filhos sempre é feito, mas na maioria das vezes, as mães não possuem afeto maternal pelos bebês”, contou Cleusa.
Quando a paciente recebe alta hospitalar, o Conselho Tutelar é avisado para analisar se a mãe terá condições de ficar com o recém-nascido. “Muitas dessas pacientes apresentam doenças psiquiátricas subjacentes, o que contribui para o uso das drogas. Também, é importante salientar que o envolvimento da família é fundamental no apoio e na recuperação, melhorando assim o desfecho do binômio materno-fetal”, finalizou Dr. José Osvaldo Drum.
É uma doença que adoece a família
Com 23 anos e mãe pela terceira vez, S.A S. tem na família o único apoio para cuidar dos filhos. A avó, I. S., de 74 anos e o pai, A. N. S. cuidaram da primeira filha, que acabou falecendo com 11 meses, devido a problemas pulmonares decorrentes da gestação. O segundo filho também é cuidado pela família, que será responsável pelo cuidado do recém-nascido, que desta vez não é prematuro e apresenta boa saúde.
A avó lamenta muito em ver a neta dependente das drogas. “Em meus 74 anos nunca vi nada semelhante. É a pior doença que já presenciei. É uma doença que adoece a família”, contou emocionada a avó.
“Ela não para em casa, se alimenta muito mal e fica semanas sem dar sinais de vida. Não fez pré-natal e em momento algum aceitou nossos conselhos. É muito triste para nós vê-la assim. Para se ter uma ideia, o vício é tanto que uma vez mesmo estando com o pé machucado gravemente ela saiu se arrastando de casa para ir em busca de drogas, nada consegue conter”, explicou o pai da jovem.
A principal vontade da família é a de conseguir um tratamento que garanta a cura da filha. “Meu conselho não vai para aqueles que possuem um viciado na família, pois esses sentem na pele o que nós sentimos. Meu conselho vai para as famílias em que a droga ainda não chegou, para que lutem e eduquem seus filhos e parentes para que as drogas nunca cheguem aos seus lares. É muito triste e muito desgastante”, conclamou a avó.