II Jornada de Hematologia e Oncologia Pediátrica enaltece a importância do diagnóstico precoce
No Brasil, o câncer infantil já representa a primeira causa de morte, 7% do total, por doença entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos. Uma doença que não possui uma prevenção primária, mas que se diagnosticada precocemente possui grandes chances de cura. Hoje, em torno de 70% das crianças e adolescentes acometidos por câncer podem ser curados, se diagnosticados precocemente e tratados em centros especializados. O Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), de Passo Fundo, realiza desde 2014, o projeto Atenção Pode ser Câncer!, que tem o objetivo de abrir um canal de discussão sobre as neoplasias na infância e adolescência. No projeto, fascículos são escritos por especialistas da área e encaminhados trimestralmente para profissionais de saúde, das regiões norte e noroeste do estado, além de estarem disponíveis no site da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul (SPRS), que tem por objetivo alertar profissionais para o diagnóstico precoce. Com o intuito de reforçar esse projeto, promover troca de experiências e conhecimento para acadêmicos e profissionais, o HSVP e o Grupo Regional de Estudos em Leucemias e Hemopatias da Infância, promoveu a II Jornada de Hematologia e Oncologia Pediátrica, nos dias 16 e 17 de outubro. Na oportunidade, profissionais de renome na área compartilharam suas experiências e trocaram informações. Dentre eles, a Dra. Mariana Michalowski, Oncologista Pediátrica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e membro do Grupo de Leucemias e Hemopatias da Infâncias, que abordou o tema diagnóstico precoce.
A especialista pontuou que quando o Grupo foi criado há dois anos, um dos principais motivos foi levar a todos a importância do diagnóstico precoce do câncer infantil, repassando informações sobre sinais, sintomas, tentando sensibilizar os profissionais sobre a doença. “O câncer da infância tem um estigma, as pessoas tem dificuldade de falar sobre isso, porque acham que falar sobre câncer é falar de uma doença incurável. Uma das principais coisas é que é uma doença grave sim, mas que ela é potencialmente curável, tem tratamento e que a maior parte das crianças são curadas. Atualmente em pacientes com leucemia aguda a cura é em torno de 85%, mas para isso precisa ser encaminhado para um centro de referência precocemente”, aponta Mariana, destacando que ainda há muito o que se fazer, porque muitas crianças chegam nos centros quando a doença já está avançada. “Nós estamos disponíveis para informações, para debater. Eu prefiro que quando houver uma suspeita essa criança já seja encaminhada para o centro e não ser nada, do que recebê-la com a doença mais avançada, em termos de terapêuticas as vezes você tem menos para oferecer e compromete o prognóstico dessa criança, além de comprometer a qualidade de vida dessa criança a longo prazo, já que provavelmente ela vai precisar de um tratamento mais agressivo, uma cirurgia mais mutilante, por isso queremos levar essas informações à todos”.
Informação que faz a diferença
Sobre o projeto “Atenção pode ser Câncer!”, Mariana evidência que é uma forma de transmitir informações e sensibilizar os profissionais. “Geralmente quem atende as crianças são os pediatras, clínicos gerais, médicos da família, então precisam de mais novidades e conhecimento. Se existe a suspeita, encaminha para o centro especializado. Diferente do adulto onde a doença evolui pouco em um mês, na criança a doença progride mais rápido, e um mês é muito tempo. Não existe fila de espera nos centros, quando o paciente é encaminhado em no máximo uma semana é atendido, o que precisa melhorar é a atenção primária, entrar em diagnóstico diferencia”, pontua a oncologista pediátrica enfatizando que “uma criança que tem uma febre persistente, uma íngua que não melhora, está muito pálido, muito branquinho, possui alguma alteração no hemograma, deve fazer uma investigação mais apurada.
Em relação ao evento, Mariana salientou a importância de trocar experiências e informações para profissionais e acadêmicos. “ Eventos como este são essenciais, quanto mais conhecimento melhor, temos que evoluir muito nessa questão de educação médica, e esse debate auxilia na atualização e preparação para o diagnóstico precoce do câncer infantil”.
Uma longa caminhada até o diagnóstico
Léo Henrique de Barcelos, 13 anos, de Santo Ângelo, sentiu na pele as consequências de um diagnóstico tardio do câncer infantil. A vó Neuzira Machado Alves conta que aos dois anos de idade o menino teve uma ferida, que foi considerada uma picada de inseto e retirada pelos médicos. Porém, essa mancha voltou mais seis vezes e foi retirada como se fosse uma gordura. Quando Léo tinha nove anos, depois de várias cirurgias, a família viu que era necessário buscar atendimento fora da cidade, já que o nódulo voltava todo ano. Neuriza relata que precisaram entrar na justiça para conseguir sair da cidade e buscar outro centro. “Então falei com um médico que eu conhecia e ele indicou Passo Fundo. O Dr. Gustavo Castro fez mais uma cirurgia e já constatou que era câncer, um Sarcoma Juvenil. Depois disso, ficamos duas semanas realizando os exames e já iniciamos o tratamento de quimio e radioterapia. Um ano depois, a doença retornou e Léo precisou novamente fazer cirurgia. Foram momentos difíceis, para ele e para nós. Tivemos altos e baixos, mas hoje, cinco anos depois do início do tratamento, ele está bem, está curado”, informa a vó, pontuando ainda que se diagnosticado antes, talvez o caminho do tratamento não fosse tão longo. “É muito importante ter um lugar com pessoas preparadas e uma estrutura qualificada. Fez toda a diferença para o Léo. Se não tivéssemos vindo até esse serviço, possivelmente não teríamos mais ele conosco. Buscar informação é fundamental, as pessoas não podem ter receio do câncer, quanto antes descobrir melhor, o câncer tem cura”.
Foto: Dra. Mariana Michalowski palestrou no segundo dia da Jornada de Oncologia ( Foto Assessoria de Imprensa HSVP/Caroline Silvestro)